Capítulo 1
A Noite de Cinza
Rechazo a 5 Alfas
Hace 10 años, Elara fue adoptada por el Alfa de la manada Stormfang para unirse a uno de sus 5 hijos. Pero los hermanos la traicionaron por los engaños de Jenny, una maliciosa sirvienta omega. En su fiesta de 18 años, Elara decide no callar más: rechaza públicamente a los 5 hermanos y anuncia su compromiso con el misterioso y poderoso príncipe lycan, Xavier Lockhart. Cuando los hermanos descubren la verdad e intentan recuperarla, ya es muy tarde. Elara ha encontrado en Xavier a su verdadera pareja, rompiendo su maldición mortal y dejando el pasado atrás.
Ver la serieContei quatorze corpos antes de deixar de ser menina.
O primeiro foi Tomasito, o cavalariço, caído de bruços junto ao bebedouro com as costas abertas como um livro mal encadernado. O segundo, Aniceta a cozinheira, ainda apertando no punho a colher de cobre com que me perseguia quando eu roubava goiabas. Os demais já não tinham nome na minha boca, só números que minha língua mordia para não gritar.
A fazenda Montiel ardia com uma paciência obscena. O fogo não tinha pressa: lambeu as colunas, provou os telhados de palha, subiu pelas trepadeiras do corredor como se estivesse degustando um vinho. Cheirava a cana queimada, a cabelo chamuscado, àquela doçura repugnante que sai da carne quando ela já não é mais carne. Entrou pelo meu nariz e ficou morando lá, alugada para sempre.
Corri descalça sobre telhas estilhaçadas. Cada pisada me mordia e eu agradecia: a dor era a única coisa que me provava que eu não estava sonhando.
— Mãe! — gritei, e a voz se partiu ao meio, metade menina e a outra metade já outra coisa. — Mãe!
Encontrei-a sob a cimalha caída da capela. Uma viga atravessava seu ventre como uma frase sublinhada.
— Isidora — sussurrou, e sorriu. Sorriu. Com os dentes manchados de sangue e o cabelo solto colado na testa pelo suor e pelas minhas lágrimas, que já caíam no rosto dela sem que eu soubesse quando tinham começado.
Ajoelhei. Quis levantar a viga. Minhas mãos de quatorze anos sobre aquela madeira ardente foram uma piada que ninguém contou.
— Deixa, minha filha. Deixa.
— Não, não, não, não…
— Me escuta. — A mão dela buscou a minha. A cicatriz antiga da palma esquerda, aquela linha branca que eu tinha beijado mil vezes antes de dormir, arrastou-se pelo meu pulso. — Me escuta, Isidora Montiel, que o tempo está acabando e você ainda tem muito para viver.
Do corpete rasgado ela tirou alguma coisa. Um lenço. Ou o que tinha sido um lenço: um quadrado de linho queimado numa borda, com o bordado meio devorado. As iniciais da minha avó, e embaixo, uma marca que eu não conhecia — uma cifra feita de fio de ouro, um símbolo pequeno como uma promessa escondida.
— Guarda isso. Junto à pele. Sempre.
Pressionei contra o meu peito. Queimava. Não sei se o lenço ou eu.
— Me jura — disse ela, e os olhos se acenderam com uma febre que não era de doença. — Me jura que vai encontrá-los. Um por um. Me jura que não vai descansar até que o sobrenome que fez isso engula a própria cinza.
— Mãe, não me peça…
— Jura. — Os dedos dela cravaram meu pulso com uma força que não deveria mais caber naquele corpo partido. — Jura por mim, pelo seu pai, por cada um dos que você contou vindo até aqui. Jura, Isidora, ou eu morro duas vezes.
Lá fora, muito perto, uma voz de homem tossiu entre a fumaça. Vinha dos laranjais. Uma voz que dava ordens com o cansaço de quem as deu muitas vezes naquela noite.
— …revistam a capela e acabem logo. O senhor Salazar disse que não restasse ninguém desta casa com língua.
Salazar.
A palavra entrou em mim como entra um prego em madeira verde: com um estalo limpo, definitivo, que abre uma fenda que nunca mais vai fechar. Salazar. Repeti por dentro, mastiguei, guardei embaixo da língua junto ao lenço contra o peito.
Minha mãe ouviu. Minha mãe também ouviu.
O sorriso dela se tornou terrível.
— Tá vendo? — disse. — Até Deus está te dando o nome. Jura.
— Juro. — E não reconheci minha própria voz. Era grave. Era de outra pessoa. Era da mulher que eu ia ser a partir daquele instante. — Por você, pelo meu pai, por cada um. Juro, mãe. Juro, juro, juro.
Ela assentiu. Fechou os olhos. Abriu-os uma última vez, só para me olhar, e naquele olhar me entregou tudo o que não teve tempo de me ensinar: como respirar debaixo d'água, como mentir sem piscar, como amar sem deixar que o amor me desarmasse.
Depois foi embora. Assim, sem ruído. Como se já soubesse o caminho.
Fiquei com o lenço queimado sobre o coração e o nome Salazar embaixo da língua, e os passos dos homens se aproximando entre os laranjais.
Podia ficar. Deixar que me encontrassem. Me juntar ao número quatorze, me tornar o quinze, acabar de uma vez com essa dor que não cabia no peito de uma menina.
Ou podia me arrastar pela fenda no muro da sacristia, aquela que meu pai tapou mal no verão passado, a que só eu conhecia porque era pequena e curiosa e me escondia lá quando não queria rezar.
Podia viver.
Mas viver tinha um preço e eu acabara de assiná-lo com o sangue da minha mãe ainda morno no meu pulso.
Olhei para o lenço. Olhei para a cimalha caída. Olhei, pela última vez, o rosto da mulher que me pariu e que acabava de me parir uma segunda vez, dessa vez em ferro.
As vozes já estavam no corredor.
Fechei os dedos sobre o linho queimado até as iniciais se marcarem na minha palma como um selo.
E decidi.
"As vozes já estavam no corredor. Fechei os dedos sobre o linho queimado até as iniciais se marcarem na minha palma como um selo. E decidi."
Capítulo 1 terminado
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