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Cativa em Florença

Cap. 1 de 80

Capítulo 1

A pasta das sete assinaturas

Velvet Reels · Nuevo

Rechazo a 5 Alfas

Hace 10 años, Elara fue adoptada por el Alfa de la manada Stormfang para unirse a uno de sus 5 hijos. Pero los hermanos la traicionaron por los engaños de Jenny, una maliciosa sirvienta omega. En su fiesta de 18 años, Elara decide no callar más: rechaza públicamente a los 5 hermanos y anuncia su compromiso con el misterioso y poderoso príncipe lycan, Xavier Lockhart. Cuando los hermanos descubren la verdad e intentan recuperarla, ya es muy tarde. Elara ha encontrado en Xavier a su verdadera pareja, rompiendo su maldición mortal y dejando el pasado atrás.

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Tem uma mancha de sangue seco no contrato número quatro, e não é da minha mãe.

É o primeiro pensamento que me ocorre quando o ônibus freia em Pontassieve e o solavanco me joga contra o assento da frente. A pasta escorrega dos meus joelhos, se abre contra o chão encardido e os papéis se espalham entre as botas de um velho que me olha como se eu tivesse acabado de vomitar na igreja dele.

— Scusi — murmuro, recolhendo as folhas de quatro.

Ele não ajuda. Ninguém ajuda. Agachada entre os assentos, junto os vinte e três documentos com dedos que tremem — não de frio, mas de algo pior: a certeza absurda de que esses papéis sabem mais sobre a minha vida do que eu.

Terça-feira. Setembro. Trinta e um graus na Toscana e eu suando embaixo de uma jaqueta jeans que comprei numa feira de Lavapiés há quatro anos, porque a idiota que fez a mala em Madri achou que a Itália em setembro seria fria. O ônibus cheira a vinil superaquecido e fruta passada — aquele aroma denso de pêssego podre que gruda no céu da boca.

Desço numa praça que não merece o nome. Tem uma fonte sem água, uma farmácia com a persiana entreaberta e um bar com três mesas de plástico lá fora onde um homem enorme bebe algo transparente num copo minúsculo. Grappa, suponho. Aqui tudo cheira a isso: a álcool destilado, a bagaceira queimada, a algo que queima na garganta antes de engolir.

Na parede do bar, ao lado de um calendário de futebol, tem um cartaz velho com as bordas enroladas. Cachos de uva preta desenhados em traço grosso. Letras que já foram vermelhas e agora são da cor da ferrugem:

*VENDEMMIA FERRANTE — Chianti Rufina — Tradizione dal 1743.*

E embaixo, o brasão. Duas serpentes enroscadas em torno do que parece um aparelho de cobre — uma espécie de alambique antigo com um tubo comprido, algo que não sei nomear mas que reconheço porque faz semanas que o vejo impresso em cada um dos contratos da minha mãe.

Ferrante.

O nome soa diferente dito aqui, onde ele pertence. Em Madri era uma palavra abstrata, um enigma que eu buscava no Google às três da manhã sem encontrar nada — sem site, sem redes, sem rastro digital, como se alguém tivesse decidido que existir na internet era coisa vulgar. Aqui, em Pontassieve, a palavra tem peso. Sinto isso no jeito que o homem do bar levanta os olhos quando passo na frente da sua mesa. No jeito que a atendente da farmácia fecha a persiana mais um centímetro, como para ver melhor sem ser vista.

Não conheço ninguém. Ninguém me conhece. Mas carrego a pasta marrom apertada contra o peito e começo a acreditar que a pasta eles conhecem.

— Mi scusi — digo ao homem da grappa, apontando além dos telhados, na direção das colinas. — Località Ferrante?

Ele não responde na hora. Toma um gole. Limpa a boca com o dorso da mão. Me examina de cima a baixo — as botas com a sola se despregando, a mochila encardida, o cabelo escuro preso num coque que vai se desfazendo sozinho.

— Strada bianca — diz por fim, apontando com o queixo para uma estrada de cascalho que sobe entre ciprestes. — Quaranta minuti a piedi. — Faz uma pausa. — Sei sicura?

Tá certa disso?

Não. Não estou certa de nada. Não estou certa do porquê minha mãe assinou sete vezes — sete, em sete documentos diferentes, com uma letra miúda e inclinada para a direita que não parece dela, que parece de alguém que controla cada traço como se a vida dependesse disso — um acordo particular de duzentos e quarenta mil euros com gente que não existe na internet. Não estou certa do porquê a mesma mulher que reutilizava as sacolas do supermercado e recortava cupons para economizar cinquenta centavos em sabão em pó tinha um negócio financeiro com uma destilaria toscana que movimenta milhões em silêncio. Não estou certa do porquê ela foi embora numa terça de fevereiro sem dizer tchau — armário meio vazio, passaporte sumido, escova de dentes desaparecida, eu sobrando — nem do porquê deixou a caixa de sapatos embaixo da cama com um bilhete que dizia:

*Lúa, se você encontrar isso, não vá.*

Então eu vou.

***

A estrada branca sobe entre muros de pedra seca e vinhedos que se abrem em terraços escalonados sobre um vale sem fim. Cheira a sálvia amassada sob minhas botas e a terra vermelha que o sol cozinhou durante meses — um cheiro mineral, como de sangue antigo e argila. O silêncio é denso. Não tem sinal no celular: a última barrinha morreu duzentos metros atrás. As cigarras chiam com aquela insistência elétrica que parece fio desencapado se esfregando contra si mesmo. Não tem carro. Não tem gente. Só eu, a pasta e a estrada que não acaba.

Penso na minha mãe.

Marcela Montes. Mãos frias, sempre ocupadas. Silêncio como arquitetura: cada coisa que ela calava era um tijolo a mais na parede que me separava da verdade. Nunca me falou da Itália. Nunca me explicou por que o sotaque dela mudava quando estava cansada, como certas vogais se alongavam e certas consoantes se suavizavam como se debaixo do português dela houvesse outro idioma empurrando para sair.

Vinte e seis anos. Vinte e seis anos vivendo numa história com os capítulos arrancados.

Quarenta minutos. O homem do bar não mentiu. A propriedade aparece de repente quando a estrada vira numa curva fechada entre azinheiras — primeiro um muro alto de pedra escura coberta de hera seca, depois um portão de ferro com o brasão das serpentes forjado entre as grades, e atrás, uma villa que parece ter brotado da própria terra: fachada cor de terracota, venezianas de madeira verde desbotada, telhados irregulares que se sobrepõem como as camadas de algo muito antigo.

E além da villa, morro abaixo, galpões compridos e baixos com telhado de telha que devem ser as adegas. O coração do império invisível.

O portão está aberto. Meio aberto. Só o suficiente para uma pessoa passar.

Paro. O suor escorre pelas minhas têmporas e o coração bate num lugar errado, alto demais, quase na garganta. Podia dar meia-volta. Podia descer os quarenta minutos, pegar o ônibus, voltar para Florença, gastar meus últimos euros numa passagem de volta e esquecer os contratos, a dívida, as sete assinaturas. Podia viver sem saber.

Mas já tentei isso. Vinte e seis anos tentando. E aqui estou.

Empurro o portão. O ferro reclama com um gemido grave e lento, como um animal acordando a contragosto. O pátio interno é um retângulo de cascalho claro ladeado de lavanda seca e roseiras que alguém podou com precisão militar. Tem um poço de pedra no centro, sem balde. Um gato preto me olha da beira com uma indiferença soberana.

A porta principal da villa é de carvalho escuro. Não tem campainha. Tem uma aldrava de bronze em forma de cabeça de leão.

Ergo a mão.

Antes que eu bata, a porta se abre.

E o que há do outro lado ocupa o vão inteiro.

Alto. É a primeira coisa — absurdamente alto, um metro e noventa e alguma coisa que parece ainda mais porque está um degrau acima e me olha a partir dessa distância vertical que transforma tudo em desvantagem. Camisa preta com as mangas dobradas até os antebraços, e os antebraços são a segunda coisa que registro: tendões marcados sob pele morena, veias que traçam mapas, mãos grandes com nós dos dedos que já trabalharam e cicatrizes finas nos dedos que parecem deliberadas, como se ele as tivesse colecionado. Barba de três dias, escura como carvão molhado, sobre um maxilar que poderia cortar vidro.

Mas são os olhos.

Âmbar escuro. Da cor da resina aprisionando algo vivo. Me olham sem piscar, fixos, com uma atenção que não é curiosidade — é inventário. Ele está me lendo. A mochila rasgada, as botas se despregando, a pasta marrom que aperto como se fosse um colete à prova de balas. O olhar dele para meio segundo na pasta e algo se move na expressão dele — um ajuste mínimo, quase imperceptível, como uma fechadura encaixando.

Ele sabe o que é.

Ele sabe quem eu sou.

Sinto cheiro de carvalho queimado. Bergamota. E por baixo, algo terroso e úmido, como terra molhada depois de uma tempestade. O cheiro vem dele, ou da casa, ou dos dois — não consigo distinguir onde o homem termina e o lugar começa.

— Lúa Montes.

Não é uma pergunta. A voz dele é baixa, grave, com um sotaque que alonga as vogais como se as acariciasse antes de soltá-las. Diz meu nome em dois golpes — Lú-a — e cada sílaba soa como uma sentença ditada sem pressa.

Engulo em seco. Me recuso a recuar.

— Vim por causa da dívida da minha mãe.

— Eu sei.

Silêncio. O gato preto se esfrega no tornozelo dele. Ele não olha para o gato. Não para de me olhar.

— O senhor é...?

— Enzo Ferrante.

Ferrante. O nome completo. O sobrenome das serpentes, do brasão, dos contratos, de tudo que me arrastou dezesseis horas em trens baratos até essa porta. Está de pé na minha frente e é real, e é pior do que real porque meu corpo acabou de fazer algo que meu cérebro não autorizou: um puxão quente abaixo do esterno, uma reação involuntária à proximidade dele que não tem nada a ver com a dívida e tudo a ver com algo primitivo e estúpido que não posso me dar ao luxo de sentir.

Ele se afasta. Não de todo — só o suficiente para que, se eu passar, eu precise roçar o braço dele.

— Entre.

E então, antes de cruzar a soleira, eu vejo. Sobre a mesa do hall, ao lado de um castiçal apagado, tem um envelope amarelo aberto. De dentro aparece uma folha. E na folha, visível daqui onde estou — não minha letra, a letra da minha mãe, inconfundível, inclinada para a direita — mas a frase que consigo ler não tem nada a ver com dinheiro.

Diz: *...a união proibida entre...*

Enzo segue o meu olhar. A mão dele se move — rápida, precisa, sem violência — e cobre o envelope com a palma.

— Isso — diz ele, e a voz baixa mais um tom, um registro que se sente na base da coluna — não é para a senhora. Ainda.

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"Lúa consegue ler uma frase na letra da mãe — «a união proibida entre...» — num documento que Enzo cobre imediatamente com a palma da mão, avisando que aquilo «não é para ela. Ainda.» A dívida não é só dinheiro: há um segredo sobre uma união que a mãe tentou apagar."

Capítulo 1 terminado

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