

Aceitei a aliança para decepar a mão dele.
Casei-me com o filho do homem que enterrou meu pai. Aprendi a sorrir enquanto afiava a faca, porque uma órfã sem vingança não passa de uma menina que não soube proteger quem a amava.
Massimo Valenti cheira a bergamota, a couro velho e a algo metálico por baixo, como sangue seco. Tem mãos de cirurgião e de carrasco, olhos cinza-tempestade que baixam meio tom quando se enfurece, e uma calma que descasca laranjas do mesmo jeito com que assina sentenças. Carrega uma culpa que não nomeia, uma dívida herdada que paga na sombra, acreditando que o amor se quita com dinheiro e silêncio. E a mim, que vim para destruí-lo, sua voz pausada me desarma um pouco mais a cada noite.
No porão da Villa Valenti dormem os livros contábeis que provam quem arruinou meu pai. Na cama dele dorme o homem que, sem saber, passou dez anos tentando me devolver em segredo o que me foi roubado. Ele acredita que este casamento é sua penitência; eu o escolhi como minha faca. Mas cada beijo me obriga a encarar a verdade que carrego costurada sob a pele: que a vingança foi a única maneira que encontrei de continuar respirando, e que deixá-lo entrar significa soltar a única coisa que me manteve inteira.
Os penhascos de Camogli cheiram a focaccia, maresia e traição, e alguém está disposto a queimar as provas com a gente lá dentro. Posso cobrar a dívida e perdê-lo, ou salvá-lo e me perder. O que não posso é continuar fingindo que não aprendi a amar o monstro que vim enterrar.
Villa Valenti, una casona de piedra y hierro del siglo XVIII incrustada en los acantilados de Camogli, Liguria. Tres pisos que miran al mar con balcones de hierro oxidado, un olivar abandonado en la ladera trasera, un embarcadero privado donde atracan los barcos de la familia, y un sótano con archivos contables que Irene necesita abrir. El pueblo es estrecho, chismoso, atrapado entre la montaña y el Golfo Paradiso. Cada callejón huele a focaccia, salitre y secretos. No hay donde esconderse.